Identificação de Combate na Guerra Aérea

O fratricídio é um problema antigo que nunca vai acabar mas pode ser minimizado. Existe um compromisso entre a necessidade de atacar um inimigo perigoso e evitar atacar tropas amigas. A necessidade real é minimizar as próprias baixas enquanto atinge objetivos militares, e o mínimo de baixas não é o mesmo que mínimo de fratricídio.

A identificação de combate (CID) não é resultado de um sistema único, mas de vários sistemas atuando ao mesmo tempo ou em múltiplas camadas como o IFF, datalink, centros de comando, sistemas de vigilância e sistemas de identificação não cooperativos.

A identificação de combate evoluiu de procedimentos, posicionamento e identificação visual para o uso de insígnias, luzes, painéis, meios acústicos e ESM. Foi seguido dos sistemas de pergunta e resposta (Q e A). Os sistemas mais avançados são os de indicação de posição, ESM, modos de RADAR (JEM, HRR, ISAR) e óticos.

Os equipamentos mais sofisticados e caros geralmente equipam os principais meios de ataque (interceptadores de longo alcance), ou meios de vigilância (AWACS, AEGIS,  Patriot). Meios provisórios são uma alternativa barata.



Combate Aéreo a Longa Distância


A capacidade de identificar alvos com precisão, de preferência a grande distância, aumenta em muito a eficiência das operações ofensivas e defensivas. Ela também pode diminuir a possibilidade de atacar forças amigas ou alvos civis por engano.

A Identificação de Combate é o processo de obter caracterização precisa de objetos detectado no campo de batalha para obter aplicação ótima de armas. Os objetos são identificados como amigos, inimigos ou neutros.


A redução do fratricídio precisa de melhorias na identificação. Existem várias técnicas para identificação, com vantagens e desvantagens, além dos tradicionais sistemas IFF.

A tecnologia de mísseis que permite o combate aéreo a longa distância (BVR) existe desde da década de 50, mas suas vantagens táticas tem sido subtilizadas por motivos políticas e operacionais: não convém disparar seus mísseis se não souber ser o alvo é realmente inimigo. O motivo é evitar fogo amigo, fratricídio ou "blue-on-blue", situação considerada inaceitável. No Vietnã os caças estavam equipados com mísseis de longo alcance, mas para evitar
fratricídio não ouve combates a longa distância e nem engajamentos noturnos.

A identificação positiva de alvos, ou dizer com certeza o que é o contato, vem sendo a prioridade para a USAF nas últimas quatro décadas. O primeiro esforço foi o programa APX-81 Combat Tree. Era um sistema  projetado para rastrear o IFF SRO-2 dos Migs norte vietnamitas e repetia estes códigos para fazer SRO-2 "gritar" ativamente.

O Combat Tree permitia identificar o ´blip` no radar como hostil e permitiu o disparo a longa distância após a autorização da aeronave de alerta antecipado (EC-121). Uma consequência do Combat Tree foram as técnicas de encriptação do IFF.

O APX-81 foi usado com algum sucesso pelos caças F-4D Phantom II do 555th TFS nos combates aéreos da operação Linebacker I e II no Vietnã do Norte em 1972. Apesar do sucesso a USAF continuou procurando algo que mostrasse ao piloto contra que tipo de aeronave ele está disparando a longa distância.

O sensor TISEO (Target Identification System Electro-Optical) era uma camera de TV na raiz da asa esquerda do F-4 que auxiliava a identificação a longa distância. O TISEO era apontado pelo radar e o piloto podia ver as formas do que estava aparecendo na tela do radar. Teoricamente permitia o disparo de mísseis AIM-7E-2 Sparrow III.

As regras de engajamento (ROE) determinam as condições em que um alvo detectado possa ser atacado. Elas variam de uma situação para outra, devido as limitações políticas, mas o principio básico é que o alvo deve ser declarado como inimigo por vários canais independentes.

Na Guerra contra os Árabes, alguns pilotos tiveram autorização de disparar contra alvos além do alcance visual por controladores em terra. Mas havia uma promessa entre os pilotos de só dispararem com identificação visual. O resultado foi a identificação de alguns alvos como amigo que teriam virado fratricídio.

Isto explica por que o F-15 teve a grande maioria das vitórias na Tempestade do Deserto. O F-15 tinha um interrogador IFF moderno e modos de radar de identificação de alvos não cooperativos ou NCTR (Noncooperative Target Recognition ), ou seja, aqueles que não informam que são amigos. Esta tecnologia também garantiu que a maioria dos alvos fosse destruído além do alcance visual com mísseis AIM-7 Sparrow.

O modo NCTR usavam processos JEM (Jet-Engine Modulation) para detectar características do retorno do radar associada com a rotação das pás do compressor, porém é limitada em alcance e ângulos de aspectos.

As táticas da US Navy para identificação estavam atrasadas em relação a USAF e inibiu participação nas missões ar-ar. Sem um IFF e modos NCTR a US Navy não pode engaja alvos além do alcance visual onde as regras de engajamento exigiam duas indicações como hostil, geralmente a falta de resposta ao interrogador IFF interno, uma identificação positiva e um acordo de uma terceira parte como o AWACS. O AWACS gerenciava a batalha para acompanhando as aeronaves amigas e confirmando se não havia aeronaves amigas próximas ao contato.

O F/A-18 estava testando um modo um modo NCTR similar do F-15 e não tinha o interrogador IFF e o F-14 tinha o interrogador IFF, mas o seu radar não tinha modos NCTR. A consequência é que eles não puderam atacar alvos a longa distância e sem a autorização de um AWACS.

O F-16 só levava um respondedor IFF devido ao papel ar-solo. Depois da Guerra do Golfo passou a ser um caça multifunção e teve necessidade de interrogador (Hazeltine APX-113). Um F-16 Block 50 não foi o primeiro caça a disparar contra um Mig-29 no conflito de Kosovo por ainda não estar equipado com o IFF. O caça foi derrubado por um F-15C.

O modo JEM teve início no programa Musketeer da década de 70 onde foi conseguido contar o número de pás da turbina frontal (fan) durante o vôo usando um radar. É a mesma técnica que os submarinos usam para identificar alvos em potencial, obtendo uma contagem de pás. O conceito foi logo taxado de "black" (secreto), o que significa que não existe e foi renomeado de Noncooperative Target Recognition (NCTR).

A necessidade de computação da técnica JEM era alta tanto de hardware e software. Uma parte era catalogar e criar um banco de dados para ser levado  pelo caça e identificar alvos. Os processadores necessários simplesmente não existiam na época quando o programa foi definido. Teve de esperar até a década de 80 para ser testado e integrado no programa de modernização do F-15 como parte  da melhorias de meia vida - (MSIP - Multi-Stage Improvement Program) a partir de 1984.

O centro desta modernização era o radar AN/APG-63 que foi modernizado para o padrão AN/APG-70. O MSIP daria ao APG-63 a capacidade de usar os modos JEM e outras técnicas NCTR.

O F-15 passou a ter capacidade de disparar o míssil AIM-120 AMRAAM no modo 'dispare-e-esqueça' e contra alvos múltiplos (quatro de uma vez). Também foi adicionado modos de busca enquanto varre (TWS) e abertura sintética (SAR)

O MSIP também adicionaria técnicas baixa de probabilidade de detecção (LPI - Low Probability of Intercept), para detectar sem ser detectado ao emitir energia suficiente para manter contato com o alvo e evitar alertar os sistemas de ESM ou RWR do inimigo. O objetivo era trabalhar no processamento de sinais para ficar mais sensível.

As técnicas NCTR foram adicionadas em outros caças como o F-14, F-16, F/A-18, Tornado F.3 e Mirage 2000-5F.

Os F-15 modernizados foram despachados para o Golfo em 1990-91. Os alvos iraquianos que decolavam eram detectados pelo E-3 que despachava os F-15C para interceptar com modos LPI. O F-15 manobrava para "ver" a entrada do motor ou saída do motor com o modo JEM e disparava o AIM-7 Sparrow além do alcance visual. O sistema era tão bom que identificava por modelo e subvariante e não houve nenhum episódio de fratricídio na guerra aérea.

Os F-15 realizou 2.200 saídas na Guerra do Golfo voando 7.700 horas. Conseguiu um total de 33 vitórias sendo 24 a longa distância contra inimigos que nunca foram avistados. Foram disparados 71 mísseis AIM-7M Sparrow III com índice de acerto de 32%. Mais dois Mig-24 foram danificados e um Il-76 derrubado com canhão e AIM-7. Um F/A-18 derrubou um Mig-21 com um AIM-7 pensando que estava disparando um Sidewinder. Outro F-14 danificou outro caça. Um F-15E destruiu um helicóptero que acabava de decolar com uma bomba guiada a laser e foi considerado uma vitória.

A maioria dos engajamentos era traseiro e com alvos voando relativamente em linha reta. O AIM-7M ainda tinha alcance BVR neste angulo de aspecto. O Sparrow teve um desempenho pobre no Vietnã e se tornou um ótimo míssil na Guerra do Golfo. Foram evitados disparos frontais com o Sidewinder.

Nove vitórias foram com o AIM-9 Sidewinder com disparo de 19 mísseis (incluíndo dois Mirage F-1 por caças F-15 Sauditas) e índice de acerto de 47%. Também foram derrubados mais dois Su-22 Fitter três semanas após o cessar fogo. Um Mig-29 foi considerado vitória ao atingir o solo durante o combate (manouvre kill).

O canhão Vulcan nunca foi disparado. Durante o conflito do Golfo só houve um dogfight entre um par de F-15 e dois Mig-29. Os outros foram derrubados entre 5 e 15 milhas.

Um par de A-10 que procuravam alvos em terra detectaram dois helicópteros iraquianos voando baixo, onde eram até mais fácil de serem detectados devido a poeira levantada ou sombra. Foram derrubados com o canhão Avenger de 30mm. Os pilotos de F-15 reclamaram que eram serviço deles e os pilotos de A-10 proporam fazer cobertura de caça a grande altitude para os F-15 atacarem alvos no solo.

O MSIP II do F-15 ainda estava sendo introduzido durante o conflito e o AIM-120 AMRAAM não estava pronto. Mesmo assim foram despachados para o Golfo e voaram mais de 1200 vezes nos últimos dias da guerra (captive flight), mas sem oportunidade de disparo.

O AMRAAM teve a primeira chance de derrubar um caça em 28 de fevereiro de 1994, quando quatro J-21 Orao iugoslavos foram interceptados por caças F-16 da OTAN (USAF). Dois foram derrubados AMRAAM a curta distância e dentro do alcance visual  e outros dois com o AIM-9 Sidewinder.

Entre março e maio de 1999, durante o conflito de Kosovo, o AMRAAM obteve as primeiras vitórias a longa distância com seis Mig-29B iugoslavos sendo derrubados pelo AIM-120B, sendo quatro por F-15C e dois por F-16.

Após quatro décadas de promessas de desempenho dos mísseis ar-ar de longo alcance finalmente conseguiram sucesso. Os primeiros mísseis tinham pouca manobrabilidade e eram otimizados para alvos grandes a grande altitude como os bombardeiro intercontinentais que ameaçam os EUA e URSS. As oportunidades de disparo foram contra caças, como na Guerra do Vietnã, onde as regras de engajamento exigiam identificação visual, os sistemas IFF eram inadequados e o índice de acerto era baixo contra inimigos ágeis voando baixo e fazendo manobras evasivas agressivas.

Antes da Guerra do Golfo só ouve quatro vitórias BVR, sendo dois por Israel e duas no Vietnã
(sem considerar outros conflitos como Irã-Iraque e Índia-Paquistão). Um deles foi um Mig-21 identificado pelo Combate Tree  Os israelenses dispararam a longa distância mais por insistência dos americanos para testar suas armas.

No dia 29 (ou 26) de junho de 1981, um F-15 israelense do 133 esquadrão realizou um combate a longa distância com um Mig-25P/PD sírio do Primeiro Esquadrão. As duas aeronaves disparam mísseis a longa distancia (AIM-7F e R-40R). Os dois lados disseram que acertaram, ou pelo menos o F-15 recebeu danos pesados. O Mig-25 tem um perfil de vôo característico que permite identificação positiva pelo comportamento do alvo.

Israel também usa táticas de voar baixo, lançar nuvens de chaff, ligar as contramedidas eletrônicas e depois subir atrás dos Migs sírios. Os Iranianos também voavam baixo pois os caças iraquianos não eram bom para engajar alvos voando baixo.

Na Guerra Irã-Irque, os iranianos sempre tentam iniciar o engajamento a longa distância (mais de 25km) com o Phoenix disparado do F-14. Os Mirage F.1EQ, Mig-23ML e Mig-25P iraquianos sempre tentam ficar a longa distancia e sempre disparam seus mísseis com guiagem semi-ativa na maior distância possível.



O substituto do F-15 será o caça furtivo F-22. O F-22 foi otimizado para vencer seus adversários a longa distância. A tática é detectar os alvos a longa distância através de aeronaves AWACS e RC-135 Rivet Joint (identificação passiva com ESM) e passar os dados por datalink. O F-22 se aproxima para fazer identificação e foge em velocidade supersônica após disparar o AMRAAM sem ser detectado pelo inimigo. O alcance de identificação limita o alcance de disparo dos mísseis e é por isto que a USAF não está interessada em um míssil de maior alcance como o Meteor.

Sem a capacidade BVR o F-22 perde 90% de sua capacidade. A curta distância ele perde a furtividade no alcance visual. A identificação a longa distância se tornou vital pois o combate aproximado está ficando cada vez mais perigoso. Até um F-5 ou Mig-21 com armas de última geração podem vencer um F-22 no combate aproximado. A chave é evitar o combate aproximado.

Como as regras de engajamento as vezes podem exigir a identificação visual, o que é esperado em 10% dos engajamentos ou outras situações inesperadas, o F-22 também será equipado com o AIM-9X apontado pelo capacete (JHMCS) e terá vetoramento de empuxo (TVC) para supermanobrabilidade.

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