Gerenciamento de Batalha

O Gerenciamente de Batalha Aérea inclui coleta de informações sobre onde os recursos de batalha são necessários, determinando prioridades, e destinar recursos para as necessidades. O conhecimento tático ou consciência situacional dado pelo gerenciamento de batalha é parte do combate aéreo e interessa para evitar fratricídio com a coordenação precisa das forças amigas.

O conhecimento da localização e atividade das formas amigas (consciência da situação), é o resultado de planejamento, informações e vigilância.
 
Qualquer esforço que melhora a coordenação também melhora a efetividade e pode ajudar em diminuir o fratricídio. As ATO (Air Task Order), ou ordens fragmentarias, da US Navy e USAF eram difíceis de serem transmitidas entre os serviços de planejamento de ataque na Guerra do Golfo para formar os pacotes de ataque.

Os rádios disponíveis na Guerra do Golfo entre a USAF e a US Navy não eram compatíveis e as ATOs eram tão volumosas que não poderiam ser transmitidas a tempo. Também tinham problemas de nem sempre serem corretamente seguidas. No máximo 50% eram seguidas a risca e em um dia do conflito todas foram desrespeitadas.

As ATOs continham dados como tempo de saída, orbita de reabastecimento, munição, alvo, códigos de IFF, códigos de chamada, pontos de coordenação, tempo sobre o alvo (TOT) e zonas permitidas para vôo e não permitidas (No Fly Zones/Fly Zones).

Em uma ocasião, durante a primeira Guerra do Golfo, um helicóptero com rota não prevista só não foi derrubado pois um oficial de ligação das forças especiais interviu dizendo que era um vôo secreto. As aeronaves apoiando as operações secretas e cujos vôos não participavam das ATO. Em outra ocasião, dois outros helicópteros também fora dos vôos previstos foram detectados. O oficial de ligação das forças especiais foi consultado e negou que eram amigos. Foi pedido para que conferisse a informação e voltou pálido dizendo que eram amigos.

Na Guerra do Golfo não ouve fogo amigo devido ao treinamento, tecnologia, regras de engajamento, mas ocorreram também por sorte. Em uma ocasião uma aeronave voando baixo e rápido seguia em direção a Arábia Saudita. O AWACS deu autorização para um F-15 derrubá-la. O piloto resolveu fazer identificação visual, colocando-se numa posição vantajosa, e identificou como um Tornado IDS saudita fora do plano de vôo. O piloto foi condecorado. Ocorreram outros episódios semelhantes.

Como a falta de sinal de IFF é insuficiente para identificar com hostil em um pacote de ataque, as escoltas ficam impedidas de usar sua capacidade BVR, diminuindo chance de sucesso ou podendo ser derrotado para um inimigo mais ágil no combate aproximado. As regras de engajamento exigentes podem aumentar as perdas para as forças inimigas, mais do que reduz perdas por fogo amigo.

As zonas de engajamento de mísseis foram usados pela primeira vez pela USAF em dezembro de 1972 na operação Linebacker II. Nesta ocasião foram criadas "Kill Box" ao redor das ondas de ataque, chamadas "Gorilla Package". O fratricídio durante estas operações podem ser causadas por falhas de navegação, comunicações, comando, planejamento, pouca disciplina de fogo e mal função de equipamento. Melhorias nestes meios também aumentam a capacidade de combate, incluindo treinamento como a realizada na Red Flag.

Ao atacarem alvos no solo, durante a Primeira Guerra Mundial, as aeronave sempre atuavam longe das tropas amigas e de dia. Se buscava alvos de oportunidade era previamente assumido que só havia alvos inimigos na área.

No nível tático, a vigilância de longo alcance pode rastrear uma aeronave inimiga no momento que decola. Se um caça pode ser visto decolando de uma base inimiga, pouco pode ser questionado se é ou não um inimigo.

Esta capacidade esta parcialmente nas mãos das aeronaves AWACS. As limitações deste sistema é o alcance e o acompanhamento do alvo. Uma vez que ele se aproxima de uma aeronave amiga o radar não pode mais distinguí-los como alvos separados ou pode perder o rastreio se voa atrás de montanhas. Então, quando um eco de radar distinto é detectado novamente, o radar não pode mais saber se veio de uma base inimiga.

Durante a Guerra do Golfo, no primeiro dia de guerra aérea, quando o movimento das aeronaves amigas era conhecido antes do vôo, foi permitido o uso de mísseis de longo alcance para os contatos que apareceram a frente das escoltas. Outra oportunidade surgiu quando os caças iraquianos fugiam para o Irã e os mísseis de longo alcance eram o única meio de interceptá-los. Os Mig-25 também tinham um perfil de vôo, de alta velocidade, que facilitava a identificação.

O disparo de mísseis BVR contra bombardeiros nucleares durante um conflito nuclear EUA x URSS era fácil pois tudo que vinha do norte era automaticamente classificado como inimigo. Vôos amigos ou comerciais eram muito poucos e fáceis de gerenciar. Também não eram esquadrilhas de aeronaves e aeronaves que não respondiam ao IFF. As aeronaves que precisavam ser identificados visualmente eram relativamente poucas.

Durante a Guerra das Malvinas e do Kosovo foram criadas zonas de exclusão para evitar o transito de aeronaves civis e facilitar a identificação de alvos.

O AWACS pode transmitir informações, mas o maior benefício se acumula com comunicações em duas vias entre um ponto de coordenação e os combatentes avançados equipados com IFF. Por exemplo, para evitar fratricídio, os mísseis SAM são localizados em áreas defensivas especiais onde as aeronaves amigas não podem voar. Para que mísseis e caças possam operar na mesma área será necessário transmitir identificação de alvos para as baterias (JTIDS terrestre).
 
O último objetivo para identificação e sistemas de comando poderá ser um arranjo de combatentes avançados equipados com IFF de ponto, coletando informações e distribuindo em uma rede para que as informações sejam baseadas um quadro composto de todas as informações disponíveis. Com exceção da coordenação míssil-caça, nenhuma melhoria de comunicações está sendo desenvolvida para evitar fratricídio além dos sistemas de datalink.


Identificação de Combate e Mísseis Superfície-Ar


As dificuldades em encontrar soluções na identificação de aeronaves forçou os mísseis SAM e interceptadores a operarem em zonas de responsabilidade. Tipicamente, os SAMs defendem faixas de espaço aéreo onde o sobrevôo por aeronaves amigas é evitado.

Então, o que entrar nesta zona será automaticamente considerado como hostil. Estas áreas são chamadas Missile Engagement Zones ou MEZ. Os corredores não defendidos nestas zonas permitem que as aeronaves amigas passem de um lado para outro. Como o inimigo pode rastrear as aeronaves amigas, eles podem descobrir a localização dos corredores, e este corredor deve ser movidos frequentemente.

Áreas fora do MEZ são deixadas para os interceptadores. Os SAM não costumam engajar aeronaves nas zonas de engajamento de caças (FEZ - Fighter Engagement Zones).

A introdução de mísseis de longo alcance como o Patriot mudou a utilidade da partilha de responsabilidade entre SAM e caças. O alcance é tão grande que, num teatro de operações como o da Europa, haveria poucas áreas que não seria acessíveis aos caças e mísseis SAM. O alcance do Patriot pode ser restrito artificialmente pelo operador, mas isto elimina suas capacidades e a justificativa dos custos do sistema. Os EUA estão resolvendo este problema com o programa  Joint Air Defense Operations (JADO) para testar o conceito de Joint Engagement Zones, ou JEZs. Alguns testes chegaram a 30% de fratricídio.

O teste de aceitação deste conceito é chamado JADO/JEZ. A US Navy está envolvida e está testando seus sistemas NCTR ativos como o Shipboard Advanced Radar Target Identification System (SARTIS).
 
Os Patriot pertencem ao US Army mas as regras de engajamento são determinadas pela USAF. A USAF quer identificação positiva antes de permitir o disparo de um míssil. Em batalhas de larga escala envolvendo alvos múltiplos, a transferencia de informações do escalão superior para os centros de controle de tiro podem saturar os centros de dados, levando a atrasos na transferencia de dados de identificação.

Os sistemas de IFF não cooperativos devem considerar os mísseis SAM para que possam usar todos o seu potencial. O Patriot foi usado para interceptar TBMs Scud no Golfo Pérsico. Não houve fratricídio apesar de numerosas violações das áreas de defesa aérea, mas, ele também não teve papel na tarefa de defesa aérea.

Durante a Segunda Guerra do Golfo, em 2003, um F/A-18C Hornet e um Tornado GR4 britânico foram derrubados por mísseis Patriot PAC-3. Eles dividam o pequeno espaço aéreo do Kuwait para defesa aérea, ingresso e retorno dos alvos e era uma área ameaçada por mísseis balísticos iraquianos. Em outra ocasião um F-16CJ disparou um míssil HARM contra uma bateria Patriot que tinha iluminado com seu radar sem perdas no solo. Estes episódios sugerem que ainda existe uma grande falha nos sistemas de identificação americanos.


Qual a vantagem de ter um míssil de longo alcance eficiente e caro como o AIM-120 AMRAAM se for necessário se aproximar do contato para identificação visual? O alcance máximo é diferente de alcance efetivo que está limitado, entre outras coisas, a distancia de identificação, e consequentemente, ao sistema de identificação da aeronave. Todo engajamento ar-ar tem cinco fases distintas: detecção, aproximação, ataque, manobra e desengajamento. Todas são importantes e dependem de táticas. Para vencer o piloto tem que ser mais capaz que o oponente para deslocar sua aeronaves na melhor posição, usar bem seus sensores, saber as vantagens e fraquezas do oponente e de sua aeronave (inclui ele mesmo), voar formações corretas, cooperar com aliados, usar manobras e despistamento adequadamente, distribuir alvos, trancar armas, identificar a ameaça e lançar contramedidas se necessário. Nos últimos anos a surpresa está mostrando ser cada vez mais difícil. Na maioria das vezes os dois lados sabem da presença do inimigo. No mínimo os sistema de detecção passivas com o RWR podem detectar uma emissão e avisar o que é e qual a distância.


Operação Bolo

Em 1966 o Vietnã do Norte recebeu caças russos Mig-21 Fishbed que foram estacionados em bases ao redor da capital Hanoi e no porto de Haiphong.

Os casulos de guerra eletrônica QRC-160 dos F-105 e F-4C estava diminuindo as capacidade dos mísseis e e artilharia antiaérea guiada por radar disparados pelo Vietnã do Norte. Apenas em 1967, 325 aeronaves americanas foram perdidas para as defesas antiaéreas norte vietnamitas. Por isto, os vietnamitas passaram a usar caças com mais frequência. Apenas o Regimento de Caças 921 derrubaram 9 F-105 (Thud) em dezembro de 1966, incluindo por pilotos russos.

Os Migs operavam sobe controle de terra, usavam cobertura das nuvens e devido as regras de engajamento benevolentes, tinham comportamento bastante previsível. Os F-105 carregados de bombas não eram manobráveis e os Mig-21 com mísseis ar-ar simplesmente assediavam os caças para que ejetassem armas antes de atingir o alvo e fugissem a toda velocidade. A missão estava cumprida se conseguissem isso - evitando que o alvo fosse atingido.



Um F-105 desvia de um míssil SA-2 vietnamita. As contramedidas americanas levaram os norte vietnamitas a usarem seus caças com mais frequência.
 


Os americanos tinham que reagir. Primeiro pensou-se em atacar as aeronaves no solo, mas tinham ordens para não atacar bases aéreas. Também não podiam aceitar que os F-105 fugissem sempre que aparecesse um Mig-21.

Os Mig-21 também fugiam sempre dos F-4. Esquadrilhas de F-4 armados com bombas voavam antes e após as de F-105, com 5 minutos de intervalo. Se atacados, tinham que ejetar as bombas e defender os Thuds. Os Mig-21 eram mais manobráveis que os F-4, mas mesmo assim tentavam atacar por trás, disparavam seus mísseis e fugiam, tentando sempre evitar o combate.

O General William "Spike" Momyer planejou a operação Bolo onde iriam tentar convencer os norte vietnamitas que caças F-4 eram bombardeiros F-105 carregados de bombas. Usou as festas de ano novo para reparar e preparar.

Os caças imitariam o perfil de vôo do F-105 Thunderchief seguindo o mesmo padrão de reabastecimento, rotas de aproximação, altitudes e velocidades dos F-105 até voarem para Hanoi e Haiphong. Também usariam os mesmos códigos de chamada e frequência de rádio. Os pilotos de F-105 também respeitavam a disciplina de comunicação por rádio o que raramente era seguido pelos pilotos de F-4. Os americanos queriam aparecer com um ataque de rotina os F-105 para os operadores de radar e inteligência de comunicações. Os norte vietnamitas estavam acostumados com ataques de 32 aeronaves, geralmente F-105 apoiados por F-4.

O objetivo do engodo era pegar Mig norte vietnamitas de surpresa. Ao invés de bombardeiros, iriam atacar 54 caças F-4C Phantom II, cada um armado com quatro mísseis AIM-7E Sparrow III e quatro AIM-8B Sidewinder.

Como os americanos não podiam atacar no solo, então tentariam prevenir que pousassem ao orbitar as bases e cortar as rotas de fuga para a China. Queriam derrubar ou deixa-los sem combustível. Era estimado que a autonomia dos Mig-21 era de 55 minutos.

Haveria uma forçaa leste de 7 esquadrilhas da 8 TFW ´The Wolf Pack` de Ubon na Tailândia e uma força oeste com 5 esquadrilhas da 366 TFW de Da Nang. A 366 TFW cobriria retirada dos Migs.
 
O Coronel Robin Olds, comandante do 8 TFW , comandaria 14 F-4C de três esquadrões. O Coronel Olds foi piloto de P-38 e P-51 na Segunda Guerra Mundial obtendo 12 vitorias contra a Luftwaffe em 1944-45.

A força total tinha 96 caças, 56 F-4C, 24 F-105 e 16 F-104 Starfighter, mais o apoio de 10 KC-135 Stratotanker para reabastecimento em vôo, um EB-66 para interferência eletrônica e um RC-121 funcionando como AEW. As esquadrilhas tinham nomes de carros, e não os nomes originais das esquadrilhas dos F-105 como planejado. As bases aéreas norte vietnamitas tinham nomes de cidade americanas.

As três primeiras esquadrilhas tinham permissão para atacar com mísseis contra alvos além do alcance visual pois sabiam exatamente onde estavam as aeronaves amigos antes de entrar em espaço aéreo inimigo e não haveria mais ninguém voando naquele dia. Quem aparecesse seria automaticamente assumido como hostil sem identificação visual. Isto ajudava a obter surpresa, isolava de contra ataque e dava tempo do míssil agir sem usar força G excessiva.
 
As bases aéreas eram bem defendidos, com poucas rotas de ataque e a geografia era inadequada. As regras de engajamento restritas também não ajudavam.

Os caças estavam equipados com o casulo de guerra eletrônica QRC-160, usados pelos F-105, e três tanques de combustível extra. Os F-4C podiam levar um casulo com um canhão Vulcan no cabide central, mas não foi considerado necessário.

O briefings iniciou 3 dias antes. No dia 2 de janeiro 1967, após as tripulações de terra terem trabalhado durante 28 horas preparando as aeronaves, foi lançada a Operação Bolo. O intervalo de lançamento era de 4-5 minutos e foi mantido durante o vôo para aumentar o intervalo de engajamento.

No ingresso para o alvo os caças imitaram o perfil de vôo dos F-105, voavam em linha de 4 com os casulos de guerra eletrônica ligados. Aceleravam pra 540 milhas ao entrarem no Vietnã do Norte.

A primeira esquadrilha sobrevoou a base de Phuc Yen até 3 minutos após chegar ao alvo. Os Mig-21 atrasaram a decolagem por 15 minutos. A reação foi lenta pois não esperavam ataque com mal tempo. Os Vietnamitas estavam acostumados a não serem atacados com mal tempo que impedia a pontaria dos caças-bombardeiros.  Quando a segundo esquadrilhas chegou é que apareceram os primeiros Mig-21. A ordem de disparo a longa distância foi logo cancelada.

Em menos de 15 minutos foram derrubados sete Mig-21, ou quase metade dos Mig-21 (estimada em 16 caças). Quatorze Migs decolaram contra 12 caças americanos. O campo de batalha teve um raio de 15 milhas ao redor de Phuc Yen numa altitude de 10-18 mil pés.
 
Dos sete Mig-21 derrubados, três foram com o AIM-9 (12 disparados e sete guiados) e quatro com o Sparrow (18 disparados e 9 guiados). As esquadrilhas do 366 TFW abortaram devido ao mal tempo.

Um caça americano foi derrubado por um míssil SAM em outro local. A ameaça de mísseis SAM e artilharia antiaérea foi fraca devido a presença de caças norte vietnamitas. Apenas 5 mísseis foram avistados.

Foi a maior batalha aérea da guerra e mostrou o valor do despistamento de comunicações e comando. Batalhas semelhantes só ocorreriam em 1972 durante as operações Linebacker onde foram usados pela primeira vez os pacotes de ataque (Gorilla Package) e criado zonas de engajamento de mísseis (kill boxes).

A força de Mig retaliou atacando um RF-4 de reconhecimento. Este ataque inspirou outro ataque em 5 janeiro com dois F4-C voando próximos simulando um RF-4 nas não deu resultado. Em 6 janeiro outro par foi atacado por 4 Mig-21 sendo dois derrubados. Em uma semana os norte vietnamitas tiveram mais da metade de sua frota de caças Mig-21 derrubados. Os Mig-21 ficaram 3 meses no solo.

Outra fonte cita que ouve engajamento BVR e que os vietnamitas ficaram 6 meses sem voar até entender o que aconteceu (Tom Clancy/Gen Chuck Warner - Every Man a Tiger).


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